O tempo…

Musée d’Orsay @Anna Alvarenga

Mais um ano se passou, e com ele, muitos desafios, conquistas e vitórias. Com certeza um ano de muito aprendizado, mas sempre com uma dose que acredito ser essencial, o Amor!

E com amor vários retratos revelados, estórias, memórias afetivas, novas pessoas em meu caminho, com as quais pude interagir e evoluir. Mesmo algumas ficando mais tempo que outras, o importante é o caminhar. E sou agradecida por tudo em minha vida, até nos momentos difíceis, que é quando mais amadureço e me fortaleço. Quero que minha fotografia desenhe, escreva com luz. Registro daquilo que pouco se vê. Fotografias de casamento, gestações, famílias, crianças, adolescentes, espontâneas e/ou posadas, mas que acima de tudo registrem além das imagens, sentimentos, promessas. Significando e emoldurando a passagem do tempo, da vida.

Fotografar, perpetuar, inspirar, revelar, filosofar!

Um click pode mudar tudo…

Agradeço imensamente a todos os leitores do blog, aos que comentam neste espaço ou pessoalmente, que me prestigiam! Com certeza cada vez mais me empenho em trazer a tona assuntos interessantes e diversificados, além das minhas paixões e ofício que são a poesia e a fotografia.

Que 2013 seja um ano ainda mais promissor, com diferentes e novos desafios e conquistas, perspectivas renovadas, e o desejo de que o novo ano traga ainda mais tonalidades de cores, em todos os sentidos e direções de nossas vidas.

Acho lindo esse texto, por isso a tatuagem no meu blog.

Au Revoir,

Anna

“Ao desfazer a mala percebi, chateado, que um dos pés da meia verde tinha ficado lá na praia. Àquela hora, devia estar caído atrás do armário da pousada, quem sabe até já não tivesse virado pano de chão, saquinho de parafuso, flanela para encerar móveis? Se fosse um casaco, uma calça, uma gravata, ainda haveria chances de ir parar num Achados e Perdidos, numa gaveta da recepção, mas um pé de meia? Quem se dá ao trabalho de ligar, perguntar se por acaso, mas que bom, Sedex tá ótimo, me passa a sua conta que te envio um DOC? No entanto, como já disse, fiquei chateado.

Aquelas meias haviam sido compradas na primeira viagem que fiz com a minha mulher, poucos meses depois de começarmos a namorar. Uma viagem em que cruzamos os Estados Unidos de carro, sem rumo, parando de cidade em cidade, dormindo em motéis de beira de estrada e nos descobrindo –descobrindo, por exemplo, que eu não era o tipo de cara que gosta de cruzar um país de carro, sem rumo, parando de cidade em cidade, dormindo em motéis de beira de estrada. Meu apego por “road movies”, me dei conta, enquanto discutia com a voz do GPS numa highway de oito pistas em algum lugar do Arizona, tinha mais a ver com “movies” do que com “road”. (Há uma diferença nada sutil entre assistir à “Paris, Texas” e estar em “Paris, Texas” –a diferença, digamos, entre um deserto e uma poltrona.)

Foi lá pelo meio da viagem, quando eu estava aflito, espremido entre caminhões mastodônticos e o possível fim do namoro –ela sempre querendo ver o que havia do lado de lá da montanha, eu sugerindo tomar uma cerveja na próxima esquina- que comprei as tais meias, numa cidadezinha em Nevada. Eram grossas, confortáveis, meias de domingo, daquele velho domingo que “pede cachimbo” na canção infantil. Apesar de estrangeiras, emanava delas o inconfundível aroma do lar. Algo sutil, claro: mas não é nas sutilezas que Deus e o Diabo se escondem? Pois as meias verdes amaciaram um pouco aqueles dias atribulados.

Teve uma tarde, já no fim da viagem, em que subimos um platô em Monument Valley, no Arizona. Um cenário de faroeste, digno de John Wayne ou Papa-Léguas, e, embora –ou talvez exatamente porque– escalar um platô no meio do deserto fosse a caricatura do que me desagradava no pacote aventura, a epítome do desconforto, consegui relaxar e aproveitar. Ao chegar lá no alto, suados, tiramos os sapatos, ficamos em silêncio, um encostado no outro, admirando a paisagem marciana.

Anos depois, mesmo tendo lavado dezenas de vezes as meias verdes, uma manchinha da terra vermelha de Monument Valley resistia, impregnada às suas fibras. Sempre que abria a gaveta e as via, me voltava à memória aquele momento da viagem, o momento em que entendi que o namoro, apesar de nossas diferenças –eu, poltrona; ela, platôs– iria dar certo. E deu.
Agora, um pé de meia tá lá na Barra do Sahy, passando óleo de peroba na mesa do café da manhã, o outro irá inexoravelmente pro lixinho do banheiro. Fazer o quê?

Veja, não é pela meia que eu fico triste, não. É a vida que, num detalhezinho aqui, noutro ali, tão rápido, vai ficando para trás, percebem?”

Antonio Prata para a Folha de S.P.

“Vendo através de outras lentes.”

Lucca, Toscana 2011 – Italy


Texto do fotógrafo, escritor e amigo Cláudio Edinger, que por tanto me encantar fica agora tatuado no meu blog.

“O Fim do Tédio

Cá estou eu de férias… Fotógrafo tira férias? O que é que as pessoas fazem nas férias? Eu nunca consegui tirar férias. Saí várias vezes. Não consegui é ficar mais que dez minutos nelas…

Além do que vemos, existe o invisível, transformado em real só pelo artista: literatura, música, pintura, fotografia… Cada artista tem sua própria definição do que é, precisa ter, pra poder funcionar. A minha é esta: O artista expande o universo na busca do limite, pra ver onde o mundo acaba. Tenta descobrir até onde o mundo vai. É meio como um escravo, como um jumento perseguindo a cenoura amarrada à sua frente, sempre na busca, nunca conseguindo alcançá-la…

O limite é importante, quantifica. A partir do limite é possível tentar fazer sentido do caos predominante. Só que o mundo é redondo, muda o tempo todo, fica sempre a sensação do, péra aí, já passei aqui antes… O limite é sempre um pouco mais pra lá…

Quem não acredita num poder absolutamente genial e superior que me explique como é que isso acontece… É aleatório? Afirmar isso, é como ver o quadro “Las Meninas” do Velasquez e dizer, isso aí é um monte de tinta, uma tela, um pincél e o universo deu conta do resto… Não dá né? Tem que ter o artista. A arte, e só a arte, explica o mundo.

Quando o artista entende que não há limite, quanto mais esvaziamos o oceano com um balde, e mais cheio ele fica, o artista percebe que a resposta mesmo tem que estar em outro lugar. Comecei muito tempo atrás a meditar por isso. Pra ver se o que não encontrava fora, encontraria dentro.

Aí, claro, não dá pra dizer que encontrei o limite dentro (também não tem, o processo é parecido, quanto mais se busca, quanto mais se acha, menos tem).

Mas a jornada ampliou muito, ficou absolutamente mais interessante. A viagem pra dentro fez a viagem fora ficar muito mais deliciosa. Elementos estranhos, imponderáveis começaram a se misturar na arte e no dia a dia, um alimentando o outro. O que não fazia sentido, agora continua não fazendo mais nenhum sentido, de uma forma alucinante e linda. Mas o tédio sumiu.”

“Autodefinição”

Ouço falar de Oscar Niemeyer desde criança, cujas obras conheci na lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte.

Igreja São Francisco de Assis, em Belo Horizonte, M.G.

Latino-americano, revolucionário, poeta. Apreciava sua coerência e modéstia. Comunista, generoso e firme, exilou-se em Paris durante a ditadura militar.

Para qualquer grande artista,o limite da expressão é a sua própria imaginação. Niemeyer foi ampliando esses limites ao longo de sua trajetória. Estudou Einstein e frequentemente o citava: “Das curvas é feito todo o Universo, o Universo curvo de Einstein”.

Sempre focado, ele parecia não se dispersar em questões secundárias.

Li que Niemeyer, aos 102 anos de idade, recebia um grupo de amigos toda semana, para aulas de cosmologia e astrofísica ministradas no seu escritório na Avenida Atlântica por um professor de física. Seu entusiasmo em aprender lembra um jovem estudante.

Era instigado, queria entender a estrutura do Universo, espaço sem fim, e os movimentos dos astros e dos planetas.

Museu de Niteroi

Niemeyer sempre projetou com aguda intuição: a história acaba nos ensinando que os movimentos de vanguarda aconteceram porque artistas certos conseguiram dar um passo adiante em relação ao establishment da arte.

Desde a Pampulha, Niemeyer parece avançar pelo desconhecido, alcançando o ineditismo.

Parecia haver uma inovação inquietante…

O edifício Copan, em São Paulo, é uma visão urbanística, com forte e elegante arquitetura, marco contemporâneo da cidade. A marquise do Ibirapuera, que Niemeyer desenhou para constituir-se num agradabilíssimo centro de convivência.
O MAC de Niterói, corajosa referência de cultura e arte na baía de Guanabara. A Catedral de Brasília, na qual se entra pelo subsolo, chega-se à nave, aberta para o céu.

Catedral de Brasília, D.F.

Arrepiando os preconceitos conservadores, Niemeyer sempre disse que a função mais importante da arquitetura é a beleza. Transformou a arquitetura na expressão reluzente da arte.

Essa é a arquitetura com que Niemeyer enriqueceu nossa arte e, por isso, será referência nos próximos séculos e provavelmente milênios.

Congresso de Brasília, D.F.


É dele esse belo poema, institulado “Autodefinição”, que sempre gosto de ler e considero uma fonte inspiradora:

“Na folha branca de papel faço o meu risco
Retas e curvas entrelaçadas
E prossigo atento e tudo arrisco
na procura das formas desejadas
São templos e palácios soltos pelo ar,
pássaros alados, o que você quiser
Mas se os olhar um pouco devagar,
encontrará, em todos, os encantos da mulher
Deixo de lado o sonho que sonhava
A miséria do mundo me revolta
Quero pouco, muito pouco, quase nada
A arquitetura que faço não importa
O que eu quero é a pobreza superada,
a vida mais feliz, a pátria mais amada.”

Oscar vai, Niemeyer fica.

Oscar Niemeyer, o artista, o arquiteto, o poeta, alma inspiradora…

Fotos: Google images. / Fonte de pesquisa: Wikipédia.