Faixa de pedestre

Nunca o termo “chique” foi tão usado para qualificar pessoas como
atualmente. A verdade é que ninguém é chique por decreto. E algumas boas
coisas da vida, infelizmente, não estão a venda.

Elegância é uma delas.

Assim, para ser chique é preciso muito mais que uns guarda-roupas
recheados de grifes importadas. Muito mais que um belo carro alemão. O que
faz uma pessoa chique, não é o que essa pessoa tem, mas a forma como ela
se comporta.

Chique mesmo é quem fala baixo.

Quem não procura chamar atenção com
suas risadas muito altas, nem por seus imensos decotes nem com a soberba.
Mas que, sem querer, atrai todos os olhares, porque tem brilho próprio.

Chique mesmo é quem é discreto, não faz perguntas inoportunas, não
procura saber o que não é da sua conta e respeita os sentimentos dos outros.

Chique mesmo é não parar na faixa de pedestre e abominar a mania de jogar lixo na rua.

Chique mesmo é dar bom dia ao porteiro do seu prédio e as pessoas que estão no elevador.

Chique mesmo é olhar nos olhos do garçom e chamá-lo pelo seu nome. É
lembrar do aniversário dos amigos. Chique mesmo é não se exceder nunca.
Nem na bebida, nem na comida, nem na maneira de se vestir. Chique mesmo é
olhar no olho do seu interlocutor. É “desligar o radar” quando estiverem
sentados a mesa do restaurante, e prestar verdadeira atenção à sua
companhia.

Chique é honrar a sua palavra. É ser grato a quem lhe ajuda,
correto com quem você se relaciona e honesto nos seus negócios.

Mas para ser chique, chique mesmo, você tem, antes de
tudo, de se lembrar sempre do quanto que a vida é breve e de que vamos
todos para o mesmo lugar. Portanto, não gaste sua energia com o que não
tem valor, não desperdice as pessoas interessantes com quem se cruzar e
não aceite, em hipótese alguma, fazer qualquer coisa que não lhe faça
bem.

Escutatória

Sempre vejo anunciados cursos de oratória.
Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil…

Parafraseio o Alberto Caeiro:

“Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as ideias estranhas). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto. Ouçamos os clamores dos famintos e dos despossuídos de humanidade que teimamos a não ver nem ouvir. É tempo de renovar, se mais não fosse, a nós mesmos e assim nos tornarmos seres humanos melhores, para o bem de cada um de nós.

É chegado o momento, não temos mais o que esperar. Ouçamos o humano que habita em cada um de nós e clama pela nossa humanidade, pela nossa solidariedade, que teima em nos falar e nos fazer ver o outro que dá sentido e é a razão do nosso existir, sem o qual não somos quando se faz o silêncio na expressão da palavra.

(Rubem Alves)