Uns

E com um sopro tudo voa…

Uns vão
Uns tão
Uns são
Uns dão
Uns não
Uns hão de
Uns pés
Uns mãos
Uns cabeça
Uns só coração
Uns amam
Uns andam
Uns avançam
Uns também
Uns cem
Uns sem
Uns vêm
Uns têm
Uns nada têm
Uns mal
Uns bem
Uns nada além
Nunca estão todos

Uns bichos
Uns deuses
Uns azuis
Uns quase iguais
Uns menos
Uns mais
Uns médios
Uns por demais
Uns masculinos
Uns femininos
Uns assim
Uns meus
Uns teus
Uns ateus
Uns filhos de Deus
Uns dizem fim
Uns dizem sim
E não há outros

Uns – Caetano Veloso

O Papel e a Função de uma Obra de Arte.

Georgia-OKeefle
Black-Abstration, 1927

“Falando francamente, nada me alegra mais do que deparar-me com uma obra de arte que, além de suas qualidades artísticas, seja inovadora. Não poderia ser de outro modo, pois costumo dizer que a arte existe porque a vida não basta. E quando digo vida, nela incluo, claro, também a arte que já existe. E queremos mais. Daí porque o surgimento do novo é inerente à própria criação artística. Nenhum artista quer fazer o que já fizeram ou o que ele próprio já fez. Por isso que fazer arte é fazer o novo.

Só que o novo não precisa ser um paletó de três mangas, que nunca ninguém se deu ao trabalho de fazer pelo simples fato de que as pessoas têm apenas dois braços. O novo, autenticamente novo, não é uma criação a partir de nada, mas, sim, uma manifestação inusitada que surge do trabalho do artista, do processo expressivo em que está mergulhado. Esse processo não tem a lógica comum ao trabalho habitual, já que o trabalho criador é, essencialmente, a busca do espanto. Falo das artes plásticas, uma vez que, na poesia, se dá o contrário, o espanto está no começo: é o novo inesperado que faz nascer o poema.

Sem dúvida, a história da arte mostra que houve momentos em que a necessidade do novo –o esgotamento do atual– levou a um salto qualitativo que determinou uma ruptura com a tendência em voga. Exemplo disso foi quando Claude Monet pintou a célebre tela “Impression, Soleil Levant”, que determinou o surgimento do impressionismo.

Este foi um caso especial, já que para ele concorreram fatores diversos, que vão desde a implantação das estradas de ferro, que facilitaram a ida das pessoas ao campo, até a nova teoria das cores, que as explicava como resultado da vibração da luz solar sobre a superfície das coisas. O pintor, então, sai do ateliê, vai pintar ao ar livre e a pintura se torna também o registro do “devenir”, da mudança cromática da paisagem com o passar das horas. Mas isso é a explicação teórica; na prática, a pintura impressionista revela uma nova beleza, um novo encantamento.

Essa é a visão geral, porque, na verdade, cada um daqueles pintores revelou alguma beleza nova a nossos olhos. Até que Paul Cézanne provoca uma nova ruptura nessa nova linguagem.

É a partir de então –particularmente com o cubismo– que a busca do novo se acelera, talvez até em consequência do dinamismo da vida moderna. A própria sociedade –a economia, a produção industrial, as descobertas científicas– muda a cada dia. E assim, de certo modo, o novo, que era consequência natural da criatividade artística, tornou-se o objetivo do artista. Mais do que fazer arte, ele deseja agora fazer o novo, que passou a ser um valor em si mesmo.

Sucede que a busca do novo pode conduzir à desintegração da linguagem artística, o que ocorreu com as artes plásticas durante o século 20. Não tendo mais linguagem, os que tomaram esse rumo passaram a usar as coisas mesmas como meio de expressão, bastando, para isso, deslocá-las de sua situação usual e pô-las num museu ou numa galeria de arte.

Mas há artistas que, sem voltar ao tradicional, criam novas linguagens, como, por exemplo, Alexandre Dacosta, que se vale de múltiplas relações formais e vocabulares para nos instigar a imaginação e nos divertir.

Ele atua nos mais diversos campos da expressão visual, mas aqui vou me ater aos dois livros que editou recentemente e que se intitulam “Tecnopoética” e “Adjetos”. São criações de gratificante originalidade, em que ele mescla objetos, cores, palavras, signos visuais, postos todos a serviço de um senso de humor que explora o nonsense.

Ao contrário de outros artistas que tentam se impor pelo gigantismo das obras, Alexandre inventa pequenos objetos, às vezes “máquinas inúteis”, à la Picabia.

Exemplo: O “receptor descartável de impropérios”, e outro, chamado “suruba”, feito de tomadas elétricas encaixadas umas nas outras. Há um outro, que consiste num sapato com rodas de patins e uma hélice que o faria levantar voo.

Ele define seus objetos como “utensílios capazes de deslocar a percepção para uma invertida reflexão do cotidiano”. Trata-se de uma das manifestações mais inteligentes e criativas dentre as que vi ultimamente nesse gênero de arte.”

Ferreira Gullar, para a Folha de S.P.- Domingo, 06 de janeiro de 2013.

“Autodefinição”

Ouço falar de Oscar Niemeyer desde criança, cujas obras conheci na lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte.

Igreja São Francisco de Assis, em Belo Horizonte, M.G.

Latino-americano, revolucionário, poeta. Apreciava sua coerência e modéstia. Comunista, generoso e firme, exilou-se em Paris durante a ditadura militar.

Para qualquer grande artista,o limite da expressão é a sua própria imaginação. Niemeyer foi ampliando esses limites ao longo de sua trajetória. Estudou Einstein e frequentemente o citava: “Das curvas é feito todo o Universo, o Universo curvo de Einstein”.

Sempre focado, ele parecia não se dispersar em questões secundárias.

Li que Niemeyer, aos 102 anos de idade, recebia um grupo de amigos toda semana, para aulas de cosmologia e astrofísica ministradas no seu escritório na Avenida Atlântica por um professor de física. Seu entusiasmo em aprender lembra um jovem estudante.

Era instigado, queria entender a estrutura do Universo, espaço sem fim, e os movimentos dos astros e dos planetas.

Museu de Niteroi

Niemeyer sempre projetou com aguda intuição: a história acaba nos ensinando que os movimentos de vanguarda aconteceram porque artistas certos conseguiram dar um passo adiante em relação ao establishment da arte.

Desde a Pampulha, Niemeyer parece avançar pelo desconhecido, alcançando o ineditismo.

Parecia haver uma inovação inquietante…

O edifício Copan, em São Paulo, é uma visão urbanística, com forte e elegante arquitetura, marco contemporâneo da cidade. A marquise do Ibirapuera, que Niemeyer desenhou para constituir-se num agradabilíssimo centro de convivência.
O MAC de Niterói, corajosa referência de cultura e arte na baía de Guanabara. A Catedral de Brasília, na qual se entra pelo subsolo, chega-se à nave, aberta para o céu.

Catedral de Brasília, D.F.

Arrepiando os preconceitos conservadores, Niemeyer sempre disse que a função mais importante da arquitetura é a beleza. Transformou a arquitetura na expressão reluzente da arte.

Essa é a arquitetura com que Niemeyer enriqueceu nossa arte e, por isso, será referência nos próximos séculos e provavelmente milênios.

Congresso de Brasília, D.F.


É dele esse belo poema, institulado “Autodefinição”, que sempre gosto de ler e considero uma fonte inspiradora:

“Na folha branca de papel faço o meu risco
Retas e curvas entrelaçadas
E prossigo atento e tudo arrisco
na procura das formas desejadas
São templos e palácios soltos pelo ar,
pássaros alados, o que você quiser
Mas se os olhar um pouco devagar,
encontrará, em todos, os encantos da mulher
Deixo de lado o sonho que sonhava
A miséria do mundo me revolta
Quero pouco, muito pouco, quase nada
A arquitetura que faço não importa
O que eu quero é a pobreza superada,
a vida mais feliz, a pátria mais amada.”

Oscar vai, Niemeyer fica.

Oscar Niemeyer, o artista, o arquiteto, o poeta, alma inspiradora…

Fotos: Google images. / Fonte de pesquisa: Wikipédia.

Yayoi Kusama x Louis Vuitton

Vogue, julho 2012, coleção da Louis Vuitton em parceria com a artista plástica Yayoi Kusama.

Conheci a arte de Yayoi Kusama cerca de um ano atrás, numa viagem para Madri, dentro do museu Reina Sofía. É intenso, é instigante, é desafiador, é vibrante, é único! Isto que a arte faz, transportar para um novo mundo, novas perspectivas e pontos de vista!

Kusama, octogenária que representa vários movimentos numa história só. A artista se internou numa clínica psiquiátrica em Tóquio em 1977 e, mesmo depois de receber alta, pediu para continuar lá, onde aonde vive por opção. Li que sai de casa dia sim, outro não para trabalhar no estúdio que fica perto. Deve achar a vida fora de lá muito louca?

www.louisvuittonkusama.com

Vamos aguardar para ver! Meu objeto de consumo é a capa de chuva, alegrar os dias na Pauliceia com as bolas coloridas de Yayoi Kusama seria uma ótima oportunidade de re-lembrar de tudo que senti quando vi sua obra pessoalmente, e perceber um ser humano único e completamente envolvido com sua arte, seus ideais e idéias! Inspiração!!