Tempo incerto

Da minha janela

Tempo incerto

“Os homens têm complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada: para se fazer alguma coisa é preciso aliar a um impulso de aventura grandes sombras de dúvida. Não se acredita mais na existência de gente honesta; e os bons têm medo de exercitarem sua bondade, para não serem tratados de hipócritas ou de ingênuos.

Vivemos um momento em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência. A observação do presente leva-nos até a descer dos exemplos do passado: os varões ilustres de outras eras terão sido realmente ilustres? Ou a História nos está contando as coisas ao contrário, pagando com dinheiros dos testemunhos a opinião dos escribas?

Se prestarmos atenção ao que nos dizem sobre as coisas que nós mesmos presenciamos – ou temos que aceitar a mentira como a arte mais desenvolvida do nosso tempo, ou desconfiamos do nosso próprio testemunho, e acabamos no hospício!

Pois assim, é, meus senhores! Prestai atenção às coisas que vos contam, em família, na rua, nos cafés, em várias letras de forma, e dizei-me se não estão incertos os tempos e se não devemos todos andar de pulga atrás da orelha!

Agora, pensam os patrões, os empregados, os amigos e inimigos de uns e de outros e todo o resto da massa humana. E não só pensam, como também pensam que pensam! E além de pensarem que pensam, pensam que têm razão! E cada um é o detentor exclusivo da razão!

Pois de tal abundância de razão é que se faz a loucura. E a vocação das pessoas, hoje em dia, não é para o diálogo com ou sem palavras, mas para balas de diversos calibres. Perto disso, a carestia da vida é um ramo de flores. O que anda mesmo caro é alma. E o demônio passeia pelo mundo, glorioso e imune.”

Cecília Meireles

Silêncio de lantejoulas.

Da minha janela.

Súdita que sou, brilhante, imersa em uma sociedade de lantejoulas, eu nunca havia percebido: o silêncio.

Dentro do silencio REINA a consciência. Ela situa o que tenho a minha volta. No silêncio, estou no meu trono.

No início é estranho. Nenhum ruído me dirige, nenhuma sensação me delimita. É preciso me tornar minúscula para me reencontrar nessa desolação átona dos elementos da vida.

Depois, acabo descobrindo o infinitamente pequeno. Eu não existo no facebook. Eu não existo no instagram. Eu me reinvento dentro de mim mesma. Eu sou mais feliz sem selfies. Eu sou mais feliz sem esperar os likes do que sou, de onde vou, com quem vou.

Ao contrário, eu gosto e me satisfaço no meu infinito particular. Sem intervenção externa. Isto me liberta. Me deixa leve.

Eu me acostumo com a minha presença, em si. Eu me observo sem me entediar. Vivo a explosão que há em mim mesma. Fortaleço-me na minha existência, percebo minhas sensações.

E é no fundo de mim mesma, em minha interioridade, em meu mistério, que encontro o Outro.

Uns

E com um sopro tudo voa…

Uns vão
Uns tão
Uns são
Uns dão
Uns não
Uns hão de
Uns pés
Uns mãos
Uns cabeça
Uns só coração
Uns amam
Uns andam
Uns avançam
Uns também
Uns cem
Uns sem
Uns vêm
Uns têm
Uns nada têm
Uns mal
Uns bem
Uns nada além
Nunca estão todos

Uns bichos
Uns deuses
Uns azuis
Uns quase iguais
Uns menos
Uns mais
Uns médios
Uns por demais
Uns masculinos
Uns femininos
Uns assim
Uns meus
Uns teus
Uns ateus
Uns filhos de Deus
Uns dizem fim
Uns dizem sim
E não há outros

Uns – Caetano Veloso