O Papel e a Função de uma Obra de Arte.

Georgia-OKeefle
Black-Abstration, 1927

“Falando francamente, nada me alegra mais do que deparar-me com uma obra de arte que, além de suas qualidades artísticas, seja inovadora. Não poderia ser de outro modo, pois costumo dizer que a arte existe porque a vida não basta. E quando digo vida, nela incluo, claro, também a arte que já existe. E queremos mais. Daí porque o surgimento do novo é inerente à própria criação artística. Nenhum artista quer fazer o que já fizeram ou o que ele próprio já fez. Por isso que fazer arte é fazer o novo.

Só que o novo não precisa ser um paletó de três mangas, que nunca ninguém se deu ao trabalho de fazer pelo simples fato de que as pessoas têm apenas dois braços. O novo, autenticamente novo, não é uma criação a partir de nada, mas, sim, uma manifestação inusitada que surge do trabalho do artista, do processo expressivo em que está mergulhado. Esse processo não tem a lógica comum ao trabalho habitual, já que o trabalho criador é, essencialmente, a busca do espanto. Falo das artes plásticas, uma vez que, na poesia, se dá o contrário, o espanto está no começo: é o novo inesperado que faz nascer o poema.

Sem dúvida, a história da arte mostra que houve momentos em que a necessidade do novo –o esgotamento do atual– levou a um salto qualitativo que determinou uma ruptura com a tendência em voga. Exemplo disso foi quando Claude Monet pintou a célebre tela “Impression, Soleil Levant”, que determinou o surgimento do impressionismo.

Este foi um caso especial, já que para ele concorreram fatores diversos, que vão desde a implantação das estradas de ferro, que facilitaram a ida das pessoas ao campo, até a nova teoria das cores, que as explicava como resultado da vibração da luz solar sobre a superfície das coisas. O pintor, então, sai do ateliê, vai pintar ao ar livre e a pintura se torna também o registro do “devenir”, da mudança cromática da paisagem com o passar das horas. Mas isso é a explicação teórica; na prática, a pintura impressionista revela uma nova beleza, um novo encantamento.

Essa é a visão geral, porque, na verdade, cada um daqueles pintores revelou alguma beleza nova a nossos olhos. Até que Paul Cézanne provoca uma nova ruptura nessa nova linguagem.

É a partir de então –particularmente com o cubismo– que a busca do novo se acelera, talvez até em consequência do dinamismo da vida moderna. A própria sociedade –a economia, a produção industrial, as descobertas científicas– muda a cada dia. E assim, de certo modo, o novo, que era consequência natural da criatividade artística, tornou-se o objetivo do artista. Mais do que fazer arte, ele deseja agora fazer o novo, que passou a ser um valor em si mesmo.

Sucede que a busca do novo pode conduzir à desintegração da linguagem artística, o que ocorreu com as artes plásticas durante o século 20. Não tendo mais linguagem, os que tomaram esse rumo passaram a usar as coisas mesmas como meio de expressão, bastando, para isso, deslocá-las de sua situação usual e pô-las num museu ou numa galeria de arte.

Mas há artistas que, sem voltar ao tradicional, criam novas linguagens, como, por exemplo, Alexandre Dacosta, que se vale de múltiplas relações formais e vocabulares para nos instigar a imaginação e nos divertir.

Ele atua nos mais diversos campos da expressão visual, mas aqui vou me ater aos dois livros que editou recentemente e que se intitulam “Tecnopoética” e “Adjetos”. São criações de gratificante originalidade, em que ele mescla objetos, cores, palavras, signos visuais, postos todos a serviço de um senso de humor que explora o nonsense.

Ao contrário de outros artistas que tentam se impor pelo gigantismo das obras, Alexandre inventa pequenos objetos, às vezes “máquinas inúteis”, à la Picabia.

Exemplo: O “receptor descartável de impropérios”, e outro, chamado “suruba”, feito de tomadas elétricas encaixadas umas nas outras. Há um outro, que consiste num sapato com rodas de patins e uma hélice que o faria levantar voo.

Ele define seus objetos como “utensílios capazes de deslocar a percepção para uma invertida reflexão do cotidiano”. Trata-se de uma das manifestações mais inteligentes e criativas dentre as que vi ultimamente nesse gênero de arte.”

Ferreira Gullar, para a Folha de S.P.- Domingo, 06 de janeiro de 2013.

O tempo…

Musée d’Orsay @Anna Alvarenga

Mais um ano se passou, e com ele, muitos desafios, conquistas e vitórias. Com certeza um ano de muito aprendizado, mas sempre com uma dose que acredito ser essencial, o Amor!

E com amor vários retratos revelados, estórias, memórias afetivas, novas pessoas em meu caminho, com as quais pude interagir e evoluir. Mesmo algumas ficando mais tempo que outras, o importante é o caminhar. E sou agradecida por tudo em minha vida, até nos momentos difíceis, que é quando mais amadureço e me fortaleço. Quero que minha fotografia desenhe, escreva com luz. Registro daquilo que pouco se vê. Fotografias de casamento, gestações, famílias, crianças, adolescentes, espontâneas e/ou posadas, mas que acima de tudo registrem além das imagens, sentimentos, promessas. Significando e emoldurando a passagem do tempo, da vida.

Fotografar, perpetuar, inspirar, revelar, filosofar!

Um click pode mudar tudo…

Agradeço imensamente a todos os leitores do blog, aos que comentam neste espaço ou pessoalmente, que me prestigiam! Com certeza cada vez mais me empenho em trazer a tona assuntos interessantes e diversificados, além das minhas paixões e ofício que são a poesia e a fotografia.

Que 2013 seja um ano ainda mais promissor, com diferentes e novos desafios e conquistas, perspectivas renovadas, e o desejo de que o novo ano traga ainda mais tonalidades de cores, em todos os sentidos e direções de nossas vidas.

Acho lindo esse texto, por isso a tatuagem no meu blog.

Au Revoir,

Anna

“Ao desfazer a mala percebi, chateado, que um dos pés da meia verde tinha ficado lá na praia. Àquela hora, devia estar caído atrás do armário da pousada, quem sabe até já não tivesse virado pano de chão, saquinho de parafuso, flanela para encerar móveis? Se fosse um casaco, uma calça, uma gravata, ainda haveria chances de ir parar num Achados e Perdidos, numa gaveta da recepção, mas um pé de meia? Quem se dá ao trabalho de ligar, perguntar se por acaso, mas que bom, Sedex tá ótimo, me passa a sua conta que te envio um DOC? No entanto, como já disse, fiquei chateado.

Aquelas meias haviam sido compradas na primeira viagem que fiz com a minha mulher, poucos meses depois de começarmos a namorar. Uma viagem em que cruzamos os Estados Unidos de carro, sem rumo, parando de cidade em cidade, dormindo em motéis de beira de estrada e nos descobrindo –descobrindo, por exemplo, que eu não era o tipo de cara que gosta de cruzar um país de carro, sem rumo, parando de cidade em cidade, dormindo em motéis de beira de estrada. Meu apego por “road movies”, me dei conta, enquanto discutia com a voz do GPS numa highway de oito pistas em algum lugar do Arizona, tinha mais a ver com “movies” do que com “road”. (Há uma diferença nada sutil entre assistir à “Paris, Texas” e estar em “Paris, Texas” –a diferença, digamos, entre um deserto e uma poltrona.)

Foi lá pelo meio da viagem, quando eu estava aflito, espremido entre caminhões mastodônticos e o possível fim do namoro –ela sempre querendo ver o que havia do lado de lá da montanha, eu sugerindo tomar uma cerveja na próxima esquina- que comprei as tais meias, numa cidadezinha em Nevada. Eram grossas, confortáveis, meias de domingo, daquele velho domingo que “pede cachimbo” na canção infantil. Apesar de estrangeiras, emanava delas o inconfundível aroma do lar. Algo sutil, claro: mas não é nas sutilezas que Deus e o Diabo se escondem? Pois as meias verdes amaciaram um pouco aqueles dias atribulados.

Teve uma tarde, já no fim da viagem, em que subimos um platô em Monument Valley, no Arizona. Um cenário de faroeste, digno de John Wayne ou Papa-Léguas, e, embora –ou talvez exatamente porque– escalar um platô no meio do deserto fosse a caricatura do que me desagradava no pacote aventura, a epítome do desconforto, consegui relaxar e aproveitar. Ao chegar lá no alto, suados, tiramos os sapatos, ficamos em silêncio, um encostado no outro, admirando a paisagem marciana.

Anos depois, mesmo tendo lavado dezenas de vezes as meias verdes, uma manchinha da terra vermelha de Monument Valley resistia, impregnada às suas fibras. Sempre que abria a gaveta e as via, me voltava à memória aquele momento da viagem, o momento em que entendi que o namoro, apesar de nossas diferenças –eu, poltrona; ela, platôs– iria dar certo. E deu.
Agora, um pé de meia tá lá na Barra do Sahy, passando óleo de peroba na mesa do café da manhã, o outro irá inexoravelmente pro lixinho do banheiro. Fazer o quê?

Veja, não é pela meia que eu fico triste, não. É a vida que, num detalhezinho aqui, noutro ali, tão rápido, vai ficando para trás, percebem?”

Antonio Prata para a Folha de S.P.

“Vendo através de outras lentes.”

Lucca, Toscana 2011 – Italy


Texto do fotógrafo, escritor e amigo Cláudio Edinger, que por tanto me encantar fica agora tatuado no meu blog.

“O Fim do Tédio

Cá estou eu de férias… Fotógrafo tira férias? O que é que as pessoas fazem nas férias? Eu nunca consegui tirar férias. Saí várias vezes. Não consegui é ficar mais que dez minutos nelas…

Além do que vemos, existe o invisível, transformado em real só pelo artista: literatura, música, pintura, fotografia… Cada artista tem sua própria definição do que é, precisa ter, pra poder funcionar. A minha é esta: O artista expande o universo na busca do limite, pra ver onde o mundo acaba. Tenta descobrir até onde o mundo vai. É meio como um escravo, como um jumento perseguindo a cenoura amarrada à sua frente, sempre na busca, nunca conseguindo alcançá-la…

O limite é importante, quantifica. A partir do limite é possível tentar fazer sentido do caos predominante. Só que o mundo é redondo, muda o tempo todo, fica sempre a sensação do, péra aí, já passei aqui antes… O limite é sempre um pouco mais pra lá…

Quem não acredita num poder absolutamente genial e superior que me explique como é que isso acontece… É aleatório? Afirmar isso, é como ver o quadro “Las Meninas” do Velasquez e dizer, isso aí é um monte de tinta, uma tela, um pincél e o universo deu conta do resto… Não dá né? Tem que ter o artista. A arte, e só a arte, explica o mundo.

Quando o artista entende que não há limite, quanto mais esvaziamos o oceano com um balde, e mais cheio ele fica, o artista percebe que a resposta mesmo tem que estar em outro lugar. Comecei muito tempo atrás a meditar por isso. Pra ver se o que não encontrava fora, encontraria dentro.

Aí, claro, não dá pra dizer que encontrei o limite dentro (também não tem, o processo é parecido, quanto mais se busca, quanto mais se acha, menos tem).

Mas a jornada ampliou muito, ficou absolutamente mais interessante. A viagem pra dentro fez a viagem fora ficar muito mais deliciosa. Elementos estranhos, imponderáveis começaram a se misturar na arte e no dia a dia, um alimentando o outro. O que não fazia sentido, agora continua não fazendo mais nenhum sentido, de uma forma alucinante e linda. Mas o tédio sumiu.”